POR QUE O TREINO NÃO SUBSTITUI O ATO DE ESTUDAR?

Por: Renata Souza Barreto – 03.12.2025

A relação entre prática esportiva e escolarização costuma ser marcada por uma falsa oposição: ou o jovem “investe” no treino ou “perde tempo” estudando. A pergunta que emerge, especialmente entre adolescentes atletas, é direta: “isso que eu aprendo estudando, se eu treinasse mais, não aprenderia também?”. À luz da neurociência da aprendizagem, essa dicotomia não se sustenta. Treino e estudo não produzem o mesmo tipo de aprendizagem, nem atuam sobre as mesmas dimensões cognitivas. Em vez de concorrentes, são dimensões complementares na formação do atleta.

Do ponto de vista neurocientífico, aprender significa modificar de forma relativamente estável a organização e o funcionamento do cérebro, por meio da plasticidade sináptica – o fortalecimento, enfraquecimento e criação de conexões entre neurônios (Lent, 2010). A prática repetida de uma habilidade motora – um chute, um saque, um drible – leva à automatização de padrões motores e ao refinamento de circuitos sensório-motores. Já o estudo sistemático de conteúdos acadêmicos mobiliza, em maior grau, redes relacionadas à linguagem, pensamento abstrato, memória de trabalho e funções executivas, ampliando o repertório cognitivo que será utilizado, inclusive, para interpretar situações de jogo complexas.

Stanislas Dehaene (2012, 2020) destaca que a aprendizagem eficaz depende de quatro grandes pilares: atenção, engajamento ativo, reforço (feedback e prática) e consolidação. Esses mesmos pilares podem ser aplicados tanto ao treino esportivo quanto ao estudo acadêmico; contudo, o tipo de conteúdo processado em cada contexto é distinto. No treino, o foco recai sobre esquemas motores e táticos específicos. Na sala de aula, o estudante é levado a compreender, argumentar, representar simbolicamente, relacionar informações de diferentes domínios. Essa diferença de natureza faz com que o estudo desenvolva capacidades que o treino, por si só, não alcança plenamente, como:

  • Memória de trabalho: capacidade de manter e manipular informações em mente por alguns segundos, fundamental para “segurar” ao mesmo tempo a orientação do treinador, a posição dos colegas e dos adversários, o tempo de jogo e o placar, antes de decidir uma ação.
  • Flexibilidade cognitiva: habilidade de mudar de estratégia rapidamente quando a situação se altera, essencial para adaptar-se a mudanças táticas, lesões, substituições e contextos adversos.
  • Controle inibitório: competência para frear impulsos imediatos (por exemplo, não fazer uma falta desnecessária, não reagir a provocações) em favor de decisões mais vantajosas.

Essas três capacidades compõem o núcleo das chamadas funções executivas, que possuem relação direta com desempenho acadêmico e também com o rendimento em tarefas complexas, como esportes coletivos de alta exigência cognitiva (Diamond, 2013). Ao estudar, o adolescente exercita de forma intensa essas funções: (a) precisa manter informações, (b) inibir distrações, (c) mudar de estratégia de resolução de problemas, (d) organizar pensamentos e argumentos. O treino esportivo também as mobiliza, mas em um contexto mais estreito; o estudo amplia a transferência dessas funções para diferentes tipos de situação.

Héctor Ruiz Martín (2017, 2020), ao discutir “aprender a aprender”, enfatiza que o estudo eficaz não é mera memorização mecânica, mas a capacidade de monitorar a própria compreensão, escolher estratégias, planejar e revisar o próprio desempenho. Esse treinamento metacognitivo – pensar sobre o próprio pensamento – é crítico para atletas que precisam tomar decisões em milésimos de segundo, interpretar orientações táticas complexas e ajustar seu comportamento a partir de feedbacks constantes. Um jovem que desenvolve metacognição nos estudos tende a transferir essa habilidade para o campo: percebe padrões de erro, testa alternativas, avalia o que funciona melhor, em vez de repetir mecanicamente condutas que não trazem resultado.

A literatura em neurociência e educação sugere, ainda, que o estudo amplia o repertório semântico e simbólico do estudante – isto é, seu conjunto de conceitos, palavras, imagens mentais e modelos explicativos de mundo (Lent, 2010; Dehaene, 2020). Esse repertório é crucial para que o atleta: compreenda com mais profundidade a linguagem técnica de treinadores, médicos, analistas de desempenho; interprete cenários táticos mais elaborados; se comunique com clareza em entrevistas, reuniões, contratos, interações internacionais; faça leituras mais sofisticadas de contexto (cultura de clube, dinâmica de grupo, aspectos sociais e econômicos do esporte).

Enquanto o treino fortalece circuitos específicos ligados a determinados gestos técnicos e padrões de jogo, o estudo expande a rede de significados que dá sentido a esses gestos e padrões. Em termos simples: o treino ensina “o que fazer” com o corpo; o estudo ensina “por que, quando e como” agir de um ou de outro modo em contextos variados.

Outro aspecto relevante é o impacto da escolarização sobre o controle emocional e a autorregulação. Processos de leitura, escrita, discussão de ideias e reflexão sobre textos e situações, quando bem mediados, ajudam o adolescente a nomear emoções, compreender causas de frustração, construir narrativas sobre si mesmo e projetar futuros possíveis. Isso contribui para um manejo mais saudável da pressão, da exposição e das inevitáveis frustrações da carreira esportiva. A educação formal, articulada com um trabalho socioemocional consistente, favorece o desenvolvimento de um atleta que não depende exclusivamente do impulso e do improviso, mas é capaz de pensar sobre o que sente e de tomar decisões mais alinhadas a seus objetivos de longo prazo.

Do ponto de vista estritamente neurobiológico, a ideia de que “treinar mais” substituiria o estudo ignora o princípio da especificidade da aprendizagem: o cérebro se modifica de acordo com o tipo de estímulo que recebe (Lent, 2010). Horas adicionais de treino físico aperfeiçoam habilidades motoras e condicionamento, mas não produzem, na mesma medida, ganhos em leitura, raciocínio abstrato, compreensão textual, fluência em outros idiomas ou análise crítica de informações. Da mesma forma, apenas estudar sem treinar não gera aprimoramento técnico esportivo. Trata-se, portanto, de sistemas parcialmente sobrepostos, mas não equivalentes.

Responder à pergunta do adolescente – “isso que aprendo estudando, se eu treinasse não aprenderia também?” – exige, então, uma formulação clara: treino e estudo ensinam coisas diferentes e complementares. Treinar desenvolve a execução eficiente de habilidades específicas; estudar desenvolve a capacidade de entender, decidir, planejar, comunicar e regular-se em contextos variados. No cenário do esporte contemporâneo, em que a análise de dados, a sofisticação tática, a exposição midiática e a mobilidade internacional são crescentes, o atleta que apenas treina está em desvantagem frente ao atleta que treina e desenvolve plenamente seu potencial cognitivo e acadêmico.

Em síntese, a partir da neurociência da aprendizagem, pode-se afirmar que o estudo não é um “tempo roubado” ao esporte, mas um treino avançado do órgão central do desempenho esportivo: o cérebro. Investir na escolarização de adolescentes atletas não é apenas uma medida de proteção social ou de “plano B”, mas uma estratégia concreta para formar jogadores e jogadoras com maior repertório, inteligência de jogo, adaptabilidade e capacidade de tomar boas decisões sob pressão.

REFERÊNCIAS

Dehaene, S. (2012). Os neurônios da leitura. Porto Alegre: Penso.

Dehaene, S. (2020). How we learn: Why brains learn better than any machine… for now. New York: Viking.

Diamond, A. (2013). Executive functions. Annual Review of Psychology, 64, 135–168.

Lent, R. (2010). Cem bilhões de neurônios: Conceitos fundamentais de neurociência. São Paulo: Atheneu.

Ruiz Martín, H. (2017). Como aprendemos? Uma abordagem científica da aprendizagem. Porto Alegre: Penso.

Ruiz Martín, H. (2020). Aprender a aprender: Estratégias para o estudante tomar o controle da sua aprendizagem. (ed. em espanhol; edições em português em circulação).